Horto - Prefácio


Quando eu era mais novo, eu tinha uma vida normal, para a maioria das pessoas. Trabalhava, tinha uma esposa que me amava, morava numa casa que era nossa, a poucos quarteirões dos meus pais. Meus irmãos me adoravam e estudavam inspirados nos meus passos, para serem adultos bem vistos, como eu. Tinha um carro, a casa, uma esposa, um filho pequeno e um bom emprego. Eu tinha uma vida feliz, e toda a liberdade que essas coisas me permitiam. Praticava esporte, corria no parque do bairro. Até o dia que veio a chuva. Achei que correria na chuva, como se fazia na época da escola. Mas não vi a chuva chegar.


Semanas depois me acordei, junto de meus pais, num quarto de hospital. Eu não me lembro de nada, e eles me contaram tudo isso. Hoje, eu tenho uma marca na cabeça, que o cabelo ainda disfarça. Eu ainda moro com meus pais. O menininho que me chama de pai, vem me visitar. Ele é muito amável. Falo pouco com a mãe dele. Ela se dá muito bem com minha mãe, mas quase não nos falamos. Vejo muita dor nos olhos dela, quando conversamos. Vejo uma frustração nos seus olhos, e uma culpa minha, que não sinto.


Meu pai me conta que o raio podia ter me matado, mas me deu uma chance. Mas ele chora quando se queixa que o raio tirou o menino dele. Minha irmã vem me ver todo domingo, e vem reparar nossos pais. Ela é carinhosa comigo, mas também leio os olhos dela, e sinto muito bem o cansaço que tem em me ter como irmão. Não bastassem os velhos, ela tem um irmão doente pra tomar conta e procurar nos albergues e necrotérios, com frequência. Ela me ama, mas sou um fardo maior que meus pais e a família cheia de filhos que ela arranjou como escape.


Meu irmão me adora, e sempre quer saber como me sinto e o que tenho visto. Ele é o meu único elo com essa gente toda aqui de casa. Parece que ele me estuda, tamanho fascínio que vejo nele, enquanto falo. E quase sempre ele sabe onde me encontrar. Parece que ele me lê.

Além da fenda na minha cabeça, o raio me deu uma cicatriz no ombro e outra no tornozelo, por onde os médicos dizem que ele “saiu”.

Além de um pé com menos mobilidade, fiquei com uma fobia de gente que me afastou dos amigos, dos eventos sociais, do meu emprego e pouco a pouco consome a vida dos meus pais e irmãos. A aposentadoria por invalidez é pífia, mas meus pais a entregam inteira na minha mão. Acredito que inteira. Não importa. Eu detesto tomar os remédios. Às vezes tomo, mas fico muito mal. Vegetativo. Quando a sociofobia bate forte, eu saio sem rumo. Caminho até a rodovia, pego carona e saio da cidade. Com frequência tenho parado no horto.


Não é perto de casa. Não é perto da cidade. É bem difícil de chegar. Mas esse lugar tem um magnetismo sobre mim. É silencioso, afastado, e só. Ninguém vai lá. Eu não tenho nenhum interesse lá. Mas aquele lugar me sequestra do mundo, desde o raio.


@RafaelGhost

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