Horto - Alma da mata


Frio. O costumeiro frio. Sinto-o no corpo. Tronco, membros e extremidades. Mesmo sob o casaco fechado e a mochila nas costas, não tenho ideia de quanto tempo caminhando e ainda sinto o frio da mata, apesar da transpiração e do suor sobre o rosto. Ainda é muito escuro, embora o céu já esteja claro e as nuvens baixas permitam leves janelas abrirem-se, revelando o céu também escuro acima da copa das árvores.


Como de hábito o silêncio domina o cenário. Somente meus passos e minha respiração reverberam na atmosfera. Entre uma parada e outra observo a mata fechada ao meu redor as folhas caídas. É como se até as plantas dormissem. Caules finos, troncos largos e infinitos cipós ilustram em três dimensões o cenário definitivo.


Pássaros, insetos, roedores... Não duvido que existam, pois já estive aqui em dias claros. Já vi antes essa mata fechada florida e verde, numa convulsão de vida hipnotizante. À noite, até a água dos córregos e nascentes para de correr.


Entre o verde escuro das copas e folhagens, o verde opaco e espinhoso de bromélias gigantes. O céu vagarosamente clareia, avivando pouco a pouco o verde. Sempre atento ao meu redor, observo tudo à minha frente, mesmo diante da mata fechada e do alcance limitado eu me esforço para focar o mais profundo possível na mata.


Olhar para o alto é reconfortante. Em certos pontos da caminhada, as copas mais altas são mais abertas e permitem pequenos espaços azul-índigo no meio do verde absoluto. A lua tímida me observa. Olhar para o largo tronco ao meu lado é perder-se num mosaico hipnótico de caules, folhas, ramos e musgos. Nessa tela natural, a vida se denuncia em detalhes sutis. O movimento suave. A quase imperceptível diferença de profundidade entre dois planos.


Seres invisíveis aos olhos forasteiros começam a se apresentar nas suas mais bizarras e alienígenas formas. Com o deslocamento de uma antena, revelou-se para mim um louva-Deus gigante a me encarar. Como armadura, dezenas de segmentos verde azulados reluziam no dorso da centopeia, refletindo dezenas de faces minhas. Apenas depois de vê-la abrir sua enorme mandíbula marrom-avermelhada pude perceber todas as suas patas douradas até a cauda vermelha, inundada de veneno.

No galho à frente, a grande folha acinzentada se abriu como um origami macabro, exibindo o diabólico rosto do samurai furioso.


Perto de uma úmida e escura bromélia, oito patas cintilantes e negras sugeriam uma esguia e majestosa aranha. Para minha surpresa, sob uma folha se ocultavam as duas formidáveis pinças de um escorpião, que mantivera sua cauda estendida sob a folhagem.


O poderio ostentado pela fauna deixava claro que a natureza daquele local não era simpática ao ser humano. Eu era um intruso ali. A prudência de olhar para onde pisava me revelava vida a cada passo. Inúmeras serpentes entre folhas mortas. Besouros também gigantes, vermes fervilhavam em uma carcaça de mamífero não mais identificável. Minhocas que se confundiam com pequenas cobras expeliam húmus sobre minhas botas.


Como se estivesse ali desde sempre, dou de cara com uma menina fantasmagoricamente branca e nua. Os membros, os lábios, mesmo seus mamilos, a pele inteira era branca como leite. Um corpo baixo em estatura e harmonioso na distribuição dos robustos membros, ostentava potentes ombros de onde pendiam braços curtos e também potentes. O pescoço curto e largo, bem como seu maxilar e seus pés, atestavam seu biótipo indígena como os raros habitantes da região. A brancura se estendia ao seu cabelo liso e armado, que alcançava seus ombros. Fora os cabelos, parecia não haver um sequer pelo naquele ser. Fosse sobrancelha ou pubiano.


No reflexo da surpresa, fosse o embaraço da nudez adolescente ou um evento sobrenatural, um grito de susto irrompeu de minha garganta, ao que pulei para trás. Em recíproco sentimento, ela também gritara, com seus pequenos e negros olhos arregalados. Iniciada uma irracional fuga, eu me choquei com toda sorte de galho, animal, rocha e musgo que encontrava. Seus pés e mãos eram róseos e impecavelmente limpos, mesmo para quem andava pela mata. Seus olhos eram tão azuis quanto o próprio céu. Ao salto entre pedras lisas, tentando entender se era real ou não aquela visão, resvalei no limo e caí sem graça alguma entre aquelas bromélias gigantes de folhas tão grandes e armadas de espinhos.


Protegendo o rosto dos respingos de lodo e fungo que eu próprio lançara para o alto na fuga, ao baixar o braço observo a delicada trama branca bordada sobre o solo, indo de encontro a um sugestivo buraco negro que suga toda a luz à sua volta. O buraco era real e cabia com facilidade meu punho fechado. Passo então a procurar com medo de encontrar o proprietário daquele tão ornado território. Percebo, mais próximo do tronco da bromélia, a forma imponente e aterrorizante do aracnídeo, de patas grandes como raízes marrons e peludas, a me observar com seus olhos caleidoscópicos.


Mas no impulso de me levantar, vejo por sobre as folhas espinhosas, uma terceira forma humana: um homem! Eu o ouvia. Ele respirava. Cada passo seu era como um “bulldozer” destroçando o terreno onde passava. A sua pesada e ruidosa capa de chuva o tornava enorme. De dentro dela, ele retirara um cano interminável de espingarda.


Procurando o autor do ruído escutado pouco antes, certamente ele esperava encontrar uma paca ou um felino de tamanho considerável, jamais imaginando tratar-se de mim, caído sob as folhagens, frente a frente com uma tarântula.


Na busca pela sua caça, ele observa ao redor algum sinal de movimento no inferno verde. Firmando um palpite, ele inicia uma busca, caminhando na direção de sete horas de onde estou caído. De trás de onde ele estava, do meio de troncos seculares retorcidos, ressurge a índia branca. Seja real ou seja uma aparição, ela sai em silêncio do meio dos troncos empunhando uma vara, me encarando no fundo dos meus olhos como se eu estivesse inteiramente à mostra, livre de lodo, bromélia ou aranha. E em silêncio ela segue caminhando entre a água no rastro do homem.


Ouvindo-os afastar-se entre os galhos e cipós, levanto-me imediatamente e retiro toda a lama, teia e musgo que tenho sobre mim. Garantindo que não corria mais risco de ter um animal sobre mim, sacudi minhas botas e atirei um tolete de lama ao solo. No tolete, algo pesado demais para ser uma lagarta. E ativo demais para uma sanguessuga. Não importa mais.


O céu azul aberto já ilumina a floresta densa e o verde já não se faz tão ameaçador. As folhas, como se despertassem, agora se abrem tão intensamente que diminuem o alcance da minha visão. Caminho entre pedras e a vegetação mais fácil de ser superada. Com as copas das árvores mais espaçadas, é possível ver o céu claro e o chão torna-se mais regular, quase plano, ainda que tomado pelo capim alto e arbustos de espinhos.


Quanto menos árvores se encontram à minha frente, mais firme e plano fica o solo. Entre os arbustos evidencia-se a ruína do que um dia fora um casarão. As paredes tomadas de raízes e galhos secos, ostentam trepadeiras e alguns pássaros que partem com algazarra ao me verem. Pequenos roedores correm pelo capim. Do outro lado da construção, escuto murmúrios. Caminho mais devagar.

Deixando a parte interna da ruína, identifico entre as macegas um cano metálico. Constato que é da espingarda do homem. Observando o objeto, constato que está carregada e engatilhada. Por precaução, sem saber a razão do murmúrio à frente, empurro a arma com o pé para baixo de uma folhagem.


Com cuidado para não ser surpreendido, vou me esgueirando entre as paredes restantes até o que parece ter sido a frente do imóvel, descobrindo quem murmurava. Agora gemia, incapaz de mover-se, o caçador. Sem a capa, apenas com uma camisa rasgada e uma calça surrada, ele agonizava ao chão com uma vara atravessada em seu corpo.

Era a vara da menina, que entrara em suas costas e saíra entre suas pernas pela frente. Como se soubesse exatamente o que devia ser feito, aproximei-me dele e o ergui. Ele não parecia compreender o que se passava, em delírio.


Como se fosse exatamente minha finalidade, e eu já estivesse ali antes, o ergui sobre meus ombros e o carreguei, ora arrastando-o, pela passagem de acesso mais fácil em direção ao que um dia foi um portão. Passando pelo arco de pedra agora em ruína, desviando dos restos de um portão, caminhamos mais alguns metros até a beira de uma estrada asfaltada.


O sol já brilhava entre as árvores e aquecia meu corpo. Ao deixar o infeliz caído no acostamento, afastei-me no primeiro ruído de carro que viera da curva adiante. Embrenhei-me de novo na mata e observei um carro parar. Não demorou até que outros carros passassem e mais algum parasse. Com dia claro e o frescor de uma manhã, decidi que o melhor era seguir por dentro da mata ao menos mais próximo da rodovia.


No alto da ruína, a índia branca me observava. Não temi. Sabia que ela me guardaria enquanto peregrinasse na mata.


@RafaelGhost

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